Soalheiro mira crescimento no Brasil com portfólio ampliado de Alvarinho
Comandada por Maria João Cerdeira, a vinícola pioneira de Melgaço apresentou em São Paulo um portfólio de sete vinhos que combina tradição, sustentabilidade e inovação

Poucas vinícolas portuguesas construíram uma identidade tão intimamente ligada a uma única casta quanto a Soalheiro. Referência internacional do Alvarinho e pioneira na produção da variedade em Melgaço, no extremo norte de Portugal, a empresa familiar apresentou em São Paulo, em parceria com a importadora Mistral, os sete rótulos atualmente disponíveis no mercado brasileiro. A degustação foi conduzida pela proprietária Maria João Cerdeira e pela enóloga galega Asun Carballo, na sede da Mistral, responsável pela importação dos vinhos da Soalheiro.
A visita ao Brasil coincidiu com um marco histórico para a vinícola: em 2024, a Soalheiro celebrou os 50 anos da plantação da primeira vinha contínua de Alvarinho em Melgaço, iniciativa de João António Cerdeira que ajudou a consolidar a sub-região de Monção e Melgaço como uma das grandes referências mundiais da casta. Fundada formalmente em 1982, a marca é hoje considerada uma das principais embaixadoras do Alvarinho português no exterior.
"Quando o meu pai decidiu arrancar milho e batatas para plantar Alvarinho, muitos acreditavam que era uma loucura", recordou Maria João durante a apresentação. O projeto familiar tornou-se uma empresa com mais de 40 colaboradores e uma rede de aproximadamente 200 famílias de viticultores vinculadas ao território.
Uma sucessão construída, não herdada
Veterinária de formação, Maria João Cerdeira não planejava assumir a liderança da vinícola. Durante anos, conciliou a carreira profissional com a gestão da empresa familiar, até optar pela dedicação integral ao negócio. Hoje à frente da segunda geração da Soalheiro, ela defende uma visão contemporânea de sucessão empresarial. "A Soalheiro não se herda, merece-se", afirmou, ao comentar a eventual participação do filho na empresa. A executiva atribui o desempenho da organização à diversidade de perfis e à valorização da equipe — atualmente, homens e mulheres dividem de forma equilibrada as funções na vinícola.
Sustentabilidade como estratégia de longo prazo
A transição para a agricultura biológica teve início em meados dos anos 2000, impulsionada pela elevada umidade e pela pressão de doenças fúngicas características da região. A certificação orgânica das vinhas próprias, contudo, foi apenas uma etapa de um processo mais amplo, que hoje envolve também os viticultores parceiros.
Para Maria João, a sustentabilidade vai além do manejo agrícola: é parte de uma estratégia de longo prazo para preservar a viabilidade econômica e social do território. A filosofia dialoga com as condições naturais de Melgaço, protegido por cadeias montanhosas que atenuam a influência atlântica e criam um microclima singular — dias quentes e noites frescas —, condição determinante para preservar a acidez e a intensidade aromática do Alvarinho.
O Brasil: mercado pequeno, mas com potencial
Apesar da crescente visibilidade da marca entre consumidores e profissionais brasileiros, o país ainda representa uma parcela modesta do faturamento da Soalheiro. Cerca de 60% das vendas permanecem no mercado doméstico português; os 40% restantes são destinados à exportação, com o Brasil respondendo por aproximadamente 2,5% do total. A executiva, porém, enxerga potencial relevante de crescimento. "Quando comecei a vir ao Brasil, há cerca de quinze anos, o consumo de vinhos brancos era muito menor. Hoje vejo um mercado muito mais aberto e curioso. Quanto mais o consumidor aprende, mais exigente se torna", observou. Os principais destinos internacionais da Soalheiro seguem concentrados na Europa, com destaque para Noruega, Suécia e Alemanha.
Um portfólio que expande as fronteiras do Alvarinho
Embora o Alvarinho continue sendo o eixo central da produção, a degustação revelou uma vinícola que utiliza a casta como plataforma para diferentes interpretações. A linha apresentada no Brasil começa pelo Espumante Bruto Nature Pur Terroir 2021, elaborado pelo método tradicional — herdeiro de uma tradição iniciada em 1995, quando a Soalheiro produziu o primeiro espumante de Alvarinho da Península Ibérica.
O clássico Soalheiro Alvarinho 2024 permanece como principal referência da casa. O Granit explora parcelas de maior altitude sobre solos graníticos, privilegiando mineralidade e tensão. O Primeiras Vinhas 2023 presta homenagem à parcela original plantada em 1974, reunindo vinhas com mais de três décadas de idade. Já o Reserva 2023 representa a interpretação mais estruturada com uso de madeira, combinando barricas de diferentes origens e idades.
A enóloga Asun Carballo explicou como a diversidade de parcelas e microclimas permite múltiplas leituras da variedade. "É uma casta que aceita muitas interpretações", resumiu, destacando que o Alvarinho de Monção e Melgaço pode originar vinhos fermentados exclusivamente em inox, espumantes, exemplares com estágio em madeira, versões com contato prolongado sobre borras e elaborações em ânforas com maceração pelicular.
Essa exploração aparece de forma mais evidente no Ag.Hora 2022, inspirado nas técnicas tradicionais da Geórgia e produzido em ânforas de terracota com maceração prolongada de películas — resultado que aproxima o Alvarinho do universo dos chamados orange wines. Completam o portfólio o Rosé 2024, corte de Alvarinho e Pinot Noir, e o Sauvignon Blanc + Alvarinho, que demonstra como a vinícola vem explorando outras variedades sem abrir mão da identidade construída em torno da casta emblemática.
Consistência como diferencial competitivo
Se a inovação é uma marca recorrente na trajetória da Soalheiro, a mensagem transmitida pela equipe em São Paulo foi clara: a experimentação só faz sentido quando sustentada pelo conhecimento profundo do território. Após cinco décadas estudando parcelas, altitudes, exposições solares e técnicas de vinificação, a empresa mantém diversas iniciativas de pesquisa em andamento — sem abrir mão do que consolidou sua reputação internacional: a capacidade de expressar, safra após safra, diferentes facetas do Alvarinho de Monção e Melgaço. Uma consistência que transformou uma pequena vinha familiar em uma das referências globais da variedade.
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