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Brasil conquista quatro ouros no Decanter Awards

Com 221 premiações e quatro ouros inéditos, o país bate recorde de performance e consolida o avanço das colheitas de inverno e dos espumantes nacionais no maior concurso de vinhos do mundo

22 de junho de 2026
Brasil conquista quatro ouros no Decanter Awards

A vitivinicultura brasileira registrou seu melhor desempenho histórico na edição de 2026 do Decanter World Wine Awards (DWWA), realizada em Londres. O país somou 221 medalhas no total, superando as marcas de todas as edições anteriores do certame, amplamente considerado o de maior relevância e volume do cenário global. O resultado mais expressivo foi a conquista de quatro medalhas de ouro — todas avaliadas com a nota de 95 pontos —, patamar que indica maturidade técnica e evolução qualitativa da produção nacional. O saldo da participação brasileira incluiu ainda 87 medalhas de prata e 130 de bronze.

Essa performance histórica distribui-se de forma estratégica pelo mapa vitivinícola do país, evidenciando o avanço simultâneo de duas frentes com perfis distintos: a consistência qualitativa dos espumantes da Região Sul e a consolidação técnica dos vinhos elaborados por dupla poda, conhecidos como vinhos de colheita de inverno, no Sudeste e Centro-Oeste. Na categoria de espumantes, a Vinícola Salton obteve a medalha de ouro com o Salton Ouro Moscatel, um feito inédito para o segmento, já que é a primeira vez que um espumante brasileiro com este perfil de doçura e frescor atinge a pontuação máxima de ouro no rigoroso concurso britânico.

Salton premiado no Decanter 2026 dois.png Paralelamente ao sucesso das borbulhas sulistas, os vinhos tranquilos de colheita de inverno demonstraram solidez técnica regional. O grande destaque ficou com a Casa Geraldo, localizada em Andradas, no sul de Minas Gerais, que conquistou duas medalhas de ouro com os rótulos Syrah Gran Reserva Colheita de Inverno 2024 e Signature Cabernet Franc 2023. O terceiro ouro da categoria de dupla poda — e uma das grandes surpresas do ano — foi para a região do Cerrado, com o rótulo Udu de Coroa Azul Grande Reserva Cabernet Franc 2023, da Vinícola São Patrício, em Goiás. O desempenho desses produtores reflete a maturidade de uma categoria que foi determinante para o crescimento do volume de premiações brasileiras em 2026. Ao todo, os vinhos de dupla poda somaram 78 medalhas, distribuídas entre produtores de Minas Gerais, São Paulo e Goiás, o que sinaliza a franca aceitação do perfil sensorial dessas novas regiões produtoras pelo júri internacional.

Para Claudio Góes, presidente da Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno (ANPROVIN), esse resultado valida a viabilidade comercial e técnica do sistema de dupla poda no país, chancelando a consolidação dos vinhos de inverno no mercado de consumo. Góes avalia que a produção de inverno superou a fase de projeto experimental para se estabelecer como uma realidade comercial robusta, destacando que "esse resultado celebra o trabalho e a dedicação de todos que acreditam no potencial dos Vinhos de Inverno brasileiros. Mostra que estamos no caminho certo e que o Brasil tem condições para se destacar entre as grandes regiões produtoras do mundo. Os Vinhos de Inverno deixaram de ser uma promessa e se transformaram em uma realidade admirada e premiada por todo o mundo."

Enquanto o Sudeste e o Centro-Oeste avançam com a tecnologia da dupla poda, a viticultura tradicional do Sul mantém sua posição como o principal motor produtivo e comercial do setor, respondendo por 143 medalhas do saldo nacional. Esse bloco foi liderado quase em sua totalidade pelo Rio Grande do Sul — abrangendo as regiões da Serra Gaúcha, Campanha Gaúcha, Serra do Sudeste e Campanha Oriental —, com participações pontuais de Santa Catarina e do Vale do São Francisco. Na Serra Gaúcha, além do ouro da Salton, registrou-se um volume expressivo de medalhas de prata para marcas tradicionais como Miolo, Chandon, Casa Valduga e Aurora, com destaque para a tipicidade e a pureza de fruta em espumantes de métodos Tradicional e Charmat longo.

Essa consistência qualitativa também se refletiu nos vinhos tranquilos da Campanha Gaúcha, onde a regularidade climática e a insolação da fronteira favoreceram a produção de tintos estruturados. A região acumulou pratas e bronzes com varietais de Tannat, Cabernet Sauvignon, Merlot e Touriga Nacional elaborados por produtores como a Batalha e o Grupo Miolo (através das marcas Almadén e Seival), mantendo a regularidade que consolida o Rio Grande do Sul como o motor inabalável do vinho brasileiro frente ao avanço da colheita de inverno.

Quem julgou?

A validação técnica dessas 221 premiações internacionais passou pelo crivo rigoroso de 245 especialistas de diversos países, em um processo de degustação às cegas que contou com uma representação brasileira de peso no corpo de jurados em Londres. A presença de profissionais nacionais de destaque assegura a calibração adequada do júri em relação à tipicidade dos terroirs sul-americanos.

O corpo de jurados em Londres teve a participação ativa de nomes centrais do mercado brasileiro, incluindo Dirceu Vianna Junior MW, o primeiro Master of Wine brasileiro, que atua como Presidente de Painel (Regional Chair), liderando os debates e calibrando as notas da América Latina; Paulo Brammer, CEO da Vinícola Guaspari, trazendo sua profunda expertise técnica e visão de mercado para os painéis de avaliação; Jorge Lucki, um dos críticos de vinho mais influentes do país e membro da Académie Internationale du Vin, presença regular nas decisões sobre o panorama sul-americano; e Catia Schisano, sommelière e consultora com sólida experiência no circuito internacional, integrando as complexas rodadas de degustação às cegas.

Ausência nos Top 50 indica longo caminho longo a seguir ainda

Embora os avanços técnicos evidenciados pelo júri sejam incontestáveis, a análise honesta do mercado exige colocar os dados em perspectiva macroeconômica global, confrontando os números locais com a concorrência internacional. A edição de 2026 do Decanter avaliou 16.631 amostras provenientes de dezenas de países. Dentro dessa competitiva disputa, a elite máxima do concurso é reservada para a categoria Best in Show, que elege os 50 melhores vinhos do mundo (apenas 0,3% do total de inscritos). É neste afunilamento que a realidade global se impõe: nenhum vinho brasileiro figurou na lista dos 50 melhores.

A ausência do país no topo absoluto da pirâmide mundial serve como um lembrete realista do longo caminho que a indústria nacional ainda precisa percorrer para competir em igualdade de condições comerciais e de prestígio com os terroirs mais consolidados do Velho e do Novo Mundo. A evolução técnica do Brasil é consistente e as 221 medalhas provam isso, mas o topo do pódio internacional continua sendo o próximo e mais complexo degrau a ser escalado pelos produtores do país, que buscam converter consistência produtiva em valor de marca percebido e penetração nos canais de distribuição de alta gama.

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