Luís Pato projeta espumantes como o futuro da Bairrada
De casta indomável a trunfo estratégico: como o trabalho pioneiro de décadas do produtor preparou a Baga para viver seu melhor momento, beneficiada pelo atual cenário de mudanças climáticas.
Há quase meio século, a uva Baga era amplamente vista como uma casta indomável, rústica e de taninos adstringentes. Hoje, ela é o pilar de uma das denominações mais singulares de Portugal, a Bairrada, e atrai a atenção de colecionadores e especialistas globais. O arquiteto dessa transformação é Luís Pato, conhecido mundialmente como o Rei da Bairrada. Aos 78 anos, o engenheiro químico que se tornou uma lenda viva do vinho português não tem formação formal em enologia. Define-se como um "aprendiz de feiticeiro" que, ao longo de 46 safras, aplicou a lógica científica para domar a casta e reposicionar uma região inteira.
Em entrevista exclusiva ao Wine Trade News, Pato analisa as dinâmicas atuais do comércio global de vinhos, a surpreendente vantagem climática da Bairrada e a longevidade de sua operação comercial no Brasil.Em um cenário de mudanças climáticas que vem redesenhando o mapa vitivinícola global, a resiliência das castas autóctones tornou-se o principal ativo de proteção contra as intempéries. Para a Península Ibérica, as alterações de temperatura estão revelando vencedores e perdedores claros. Pato é categórico ao afirmar que o aquecimento global tem, surpreendentemente, beneficiado a Baga. Ele explica que aquela tanicidade e acidez excessivas de outrora estão mais suavizadas. Com um ciclo vegetativo longo — cerca de 110 dias da floração à vindima —, a casta agora consegue atingir maturação fenólica ideal sem a necessidade de desidratação para alcançar os 13% ou 14% de álcool.
A resiliência ao estresse hídrico da Baga contrasta fortemente com o comportamento de variedades mais precoces, como a Tinta Roriz, que tem sofrido perdas drásticas de equilíbrio em anos de calor extremo. O clima atlântico da Bairrada — cujas noites de verão chegam a ser mais frias que as de Bordeaux — preserva a acidez natural da uva, um fator inegociável para o potencial de guarda que, em seus grandes tintos, pode ultrapassar as quatro décadas. Esse diferencial técnico sustenta o reposicionamento de portfólio da vinícola frente aos recentes relatórios da OIV, que apontam uma retração no consumo de tintos encorpados e uma migração veloz da demanda para brancos frescos e espumantes.
A resposta de Luís Pato a esse movimento de mercado baseia-se na gestão inteligente dos rendimentos no vinhedo. Para o produtor, a matemática comercial da uva tinta na Bairrada é simples: volume e alta gama não combinam. Para produzir tintos com taninos finos e a complexidade que o mercado exige, o rendimento não ultrapassa três toneladas por hectare, o que eleva significativamente o custo de produção. Por outro lado, vinhedos com maior vigor, produzindo até oito toneladas por hectare, entregam a matéria-prima ideal para a produção de espumantes Blanc de Noirs de altíssima qualidade. Pato projeta que o grande futuro da Baga será o espumante, enquanto os tintos serão a "cereja do bolo".
Essa visão estratégica também se estende aos vinhos brancos, onde o produtor substituiu o carvalho por tonéis de madeira de castanho para garantir vinhos redondos e resistentes à oxidação precoce, alinhados à preferência atual por brancos gastronômicos. Essa precisão técnica reflete-se no sucesso comercial: hoje, Estados Unidos e Brasil lideram as exportações da vinícola. No Brasil, a marca consolidou-se através de uma parceria ininterrupta de mais de três décadas com a importadora Mistral. Otavio Lilla, sócio da Mistral Importadora, destaca que a relação da família com Pato remonta a 1989, quando o produtor veio ao Brasil conduzir degustações logo após a fundação da ABS-SP. Segundo Lilla, Pato revolucionou o vinho português ao domar a Baga com elegância, introduzir o conceito de "Bairradas de vinhedo" e resgatar uvas como a Sercialinho. O executivo reforça que o Brasil é hoje um dos principais mercados para o produtor, onde rótulos icônicos como o Quinta do Ribeirinho Pé Franco são disputados por colecionadores, enquanto suas linhas mais acessíveis e espumantes marcam presença constante na restauração nacional.
Sobre o futuro do consumo no país, Pato demonstra otimismo com o amadurecimento do consumidor brasileiro e a ascensão dos brancos e vinhos com gradação alcoólica moderada. Com 60 hectares de vinhedos geridos sob o guarda-chuva da família, a transição geracional já está em curso com suas filhas, Filipa e Maria. Luís Pato atua hoje como o embaixador global de seu próprio legado e deixa um conselho pragmático para a nova geração que surfa a onda que ele ajudou a criar: "Viajem, mas não se deslumbrem".
Newsletter
Receba as principais notícias do trade de vinhos diretamente no seu email.
Artigos Relacionados

Soalheiro mira crescimento no Brasil com portfólio ampliado de Alvarinho
Comandada por Maria João Cerdeira, a vinícola pioneira de Melgaço apresentou em São Paulo um portfólio de sete vinhos qu...

Viña Don Melchor inova com série colecionável 'Las Parcelas' e apresenta a safra 2023
Em movimento histórico após quase quatro décadas, a vinícola chilena lança o inédito DM01, com edição limitadíssima para...