Blandy’s redesenha estratégia no Brasil para rejuvenescer o Vinho Madeira
Com nova linha de 10 anos e design focado no PDV, vinícola familiar aposta em garrafas transparentes e coquetelaria para ampliar market share no trade brasileiro.

O Vinho Madeira vive um paradoxo: enquanto o consumo global de vinhos fortificados enfrenta um declínio cíclico, os produtores de nicho da ilha veem seus números crescerem em mercados maduros. De olho no Brasil — um mercado historicamente dominado pelo Vinho do Porto — Nelson Calado, diretor comercial da Blandy’s, desembarcou no país para apresentar a nova linha de 10 anos da marca, importada pela Mistral. O movimento não é apenas estético; é uma resposta estratégica para atrair novos consumidores e otimizar a operação comercial através de um case de transparência onde o design atua como ferramenta de venda. Para o trade, a maior inovação da linha de 10 anos (Sercial, Verdelho, Bual e Malmsey) é o fim da garrafa opaca. Pela primeira vez em 215 anos, a Blandy’s utiliza garrafas transparentes, permitindo que a cor do vinho atue como um indicador visual do estilo de doçura na gôndola. "O mundo do vinho Madeira era tudo preto e branco; não havia cor, era uma coisa mais triste como o Fado português", explica Nelson Calado. "Agora, você finalmente consegue ver a cor do vinho quando chega à gôndola e consegue, a olho nu, perceber a diferença de doçura e a filosofia de cada casta. É uma tentativa de trazer a nova geração e novos conhecedores."
Para além da roupagem, a Blandy’s apresenta um diferencial baseado na ciência do terroir e no estudo que mudou o "suco" dentro das garrafas. O resultado de um estudo de cinco anos sobre o envelhecimento em sistema de Canteiro revelou que o microclima de envelhecimento é tão vital quanto o solo para o perfil sensorial final. "O verdadeiro terroir do Madeira está no envelhecimento. Descobrimos que o Sercial e o Verdelho têm melhor desempenho nos primeiros anos em zonas mais frescas e úmidas, contrariamente ao Bual e à Malvasia, que preferem o calor", revela Calado. Esse refino técnico permite que a linha chegue ao mercado com uma acidez "vulcânica" mais direta, posicionando o produto estrategicamente para harmonizações gastronômicas ousadas, como ostras e sushi. Essa precisão técnica é o que sustenta o produto diante dos números e da escassez na luta pelo espaço na gôndola. O diretor comercial trouxe dados que evidenciam a raridade do produto e o desafio de ganhar escala: enquanto o Porto produz 75 milhões de litros anuais, o Madeira produz apenas 3,5 milhões. A escala é ínfima, e a pressão imobiliária na ilha agrava o cenário, com a área de vinhedos caindo para menos de 400 hectares. "Estamos a falar de coisas muito mais raras. Quando o Porto se constipa, nós temos uma gripe; o setor baixa e as pessoas não olham para o fato de nós estarmos a crescer no nosso nicho", alerta o diretor.
Sobre o "Custo Brasil", Calado é enfático ao trade: "Não faz sentido o vinho custar o dobro aqui por política tributária. Esperamos que o acordo [Mercosul-UE] zere o imposto em oito anos para que o consumidor tenha acesso." Enquanto as questões tributárias não se resolvem, a marca aposta na coquetelaria e no shelf life como trunfos para o On-Trade. Para o canal de bares e restaurantes, a Blandy’s foca na longevidade do produto aberto como diferencial de rentabilidade. "Se abrir esta garrafa hoje e puser a rolha outra vez, daqui a um ano o vinho estará exatamente igual. Isso ajuda-nos muito na restauração", destaca Nelson, apontando para o baixo risco de perda no serviço em taça.
A coquetelaria também é o pilar para atrair o público jovem: "A ideia é estar nos bares, nos coquetéis, sendo usado para substituir spirits. O meu favorito é o Sercial Tonic: 10 anos com água tónica e uma rodela de laranja; é refrescante e funciona lindamente." Nelson Calado encerra lembrando que o Vinho Madeira só se tornou o que é hoje porque, em 1450, o açúcar do Brasil "quebrou" os produtores da ilha com uma concorrência cruel, forçando-os a focar no vinho. "O vinho não é apenas um produto; é relacionamento e hospitalidade. O caminho que nos tem feito crescer é a harmonização, a magia de combinar um prato com um fortificado", finaliza.
A presença dos vinhos da Madeira no Brasil confunde-se com a própria trajetória da Mistral, que há quase 40 anos mantém uma parceria histórica com a Blandy’s. Pioneira em elevar o status da categoria no país, a importadora foi responsável por apresentar exemplares de altíssima qualidade em uma época, nos anos 1990, em que o estilo era injustamente limitado ao uso culinário. Esse esforço de reposicionamento foi sustentado por um robusto pilar educacional: nas últimas duas décadas, a Mistral formou mais de mil profissionais, disseminando o caráter único e a importância histórica desses vinhos. Para Otavio Lilla, sócio da Mistral Importadora, “o consumidor brasileiro já aprendeu a disputar os melhores Portos e a distinguir seus estilos; nosso trabalho agora é mostrar que o Vinho da Madeira oferece uma riqueza e um potencial de envelhecimento igualmente lendários, sendo o par perfeito para quem busca descobertas gastronômicas e vinhos de personalidade única”. Com esse cenário de otimismo estratégico, explica o executivo, o desafio agora é "colocar a longevidade e a acidez vibrante do Madeira definitivamente no radar dos enófilos, estimulando a exploração de um mundo que vai do seco potente ao doce marcante".
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