Ex-executivo da Samsung estreia como enólogo na Serra Gaúcha
De engenheiro no Vale do Silício a produtor de vinho em Bento Gonçalves, Chung Liu lança suas primeiras 2.000 garrafas em setembro

Um engenheiro formado em Berkeley, ex-Apple e ex-vice-presidente de P&D da Samsung no Vale do Silício, estreia como produtor de vinhos na Serra Gaúcha em setembro, com uma safra de cerca de 2.000 garrafas divididas entre quatro rótulos. Chung Liu, nascido em Taiwan e criado na Tijuca, no Rio de Janeiro, decidiu trocar a carreira em tecnologia pela produção de vinho depois de encerrar um ciclo pessoal: a formatura da filha mais nova na faculdade, nos Estados Unidos, coincidiu com o fim da pandemia e com a pergunta sobre o que fazer da vida dali em diante. O envolvimento com vinho, porém, começou bem antes, ainda em seu primeiro emprego: recém-contratado pela Apple, foi alocado com toda a equipe no Silverado Resort, em Napa Valley, e numa noite livre um colega o levou à vinícola Grgich Hills, onde provou a primeira taça de um vinho de verdade. Só anos depois descobriria que aquele Chardonnay vinha da vinícola fundada por Mike Grgich, o enólogo croata por trás do vinho que venceu o histórico Julgamento de Paris de 1976.
A escolha pelo Brasil como base de produção veio depois de Liu cursar o programa de winemaking da UC Davis e estagiar na vinícola Dehlinger, em Russian River Valley, na Califórnia, onde pôde acompanhar de perto o trabalho de Tom Dehlinger, um dos pioneiros da região nos anos 1970. Ao avaliar onde instalar sua própria produção, Liu esbarrou nos custos do mercado californiano: uma garrafa de Pinot Noir de marca nova precisaria ser vendida a pelo menos US$ 80 para cobrir uva, produção e reinvestimento, um patamar de risco que exigiria aporte pesado em marketing para uma marca desconhecida. "Produtores já estabelecidos, como a própria Dehlinger, conseguem vender a US$ 65 sem esse gasto, por já terem terra, adega e equipamentos quitados", explica Liu.
Um amigo o apresentou a um enólogo formado em Bento Gonçalves, o que levou Liu a conhecer a Serra Gaúcha pela primeira vez. Um churrasco reunindo enólogos locais e a resposta direta que recebeu: "Vem, experimenta e vê se você gosta". Assim, o levaram a estagiar na safra de 2024 na Casa Valduga, sob acompanhamento do enólogo Daniel Dalla Valle, desde a colheita das uvas para espumantes. Ao fim da safra, Liu concluiu que o clima gaúcho é mais desafiador que o californiano, mas que o ambiente humano e o potencial de um mercado consumidor em expansão como o brasileiro pesaram mais na decisão de se instalar na região.
Para se aprofundar no mercado local, Liu cursou o nível 3 do WSET em português (atualmente é aluno do Diploma WSET, na Enocultura). Em janeiro de 2025, mudou-se para Bento Gonçalves, onde passou a operar em espaço cedido por uma cantina parceira, com capacidade ociosa. As primeiras uvas vieram de uma parceria com a própria Valduga: como a vinícola não absorveria todo o lote de Riesling Renano comprado de um produtor de Nova Petrópolis, Liu dividiu a colheita, selecionando pessoalmente as fileiras do vinhedo. A primeira safra reúne Riesling Renano, Chardonnay e Cabernet Franc; para 2026, o portfólio ganha um vinho laranja (Chardonnay e Riesling Renano com maceração pelicular) e um Pinot Noir.
O modelo de negócio é de prova de conceito: Liu compra uvas de diferentes regiões do Rio Grande do Sul, Vale dos Vinhedos à Serra Gaúchaa, sem investir em vinhedo próprio no curto prazo, o que lhe dá flexibilidade para testar terroirs, altitudes e mesoclimas distintos. Ele investiu em equipamentos próprios, como tanques de inox, mastelas e barricas de carvalho, enquanto a estrutura física da cantina, o sistema de refrigeração, a desengaçadeira e a prensa são compartilhados com os parceiros locais.
Os quatro rótulos da safra 2025/2026, batizados de "Vinhos do Liu", chegam ao mercado em setembro: Riesling Renano por R$ 250, Chardonnay por R$ 270, Vinho Laranja por R$ 210 e Cabernet Franc por R$ 290, com cerca de 600 garrafas de cada (259 do vinho laranja). Liu conduz sozinho todo o processo, do design dos rótulos à gestão das redes sociais, passando por engarrafamento, cotações logísticas, emissão de notas fiscais e atendimento via WhatsApp; os envios partem do Sul em embalagens de isopor para o transporte aéreo e de papelão para rodoviário. Segundo ele, o objetivo desta primeira safra não é o lucro, mas validar o modelo de negócio, testar a logística e medir a receptividade do mercado antes de ampliar a produção nas safras seguintes. "Depois de trinta anos construindo produtos de tecnologia para os outros, ver essas garrafas prontas com meu nome é uma realização que nenhum cargo antes me deu", celebra.

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