Brazil Wine Challenge: OIV e ABE mapeiam tendências em Bento Gonçalves
Com 1.127 amostras, concurso atua como filtro técnico e comercial para o varejo nacional

A Associação Brasileira de Enologia (ABE) deu início formal às sessões de degustação da 13ª edição do Brazil Wine Challenge, em Bento Gonçalves (RS). Realizado bienalmente, o certame consolida-se em 2026 como um dos termômetros mais precisos para o setor, reunindo um corpo técnico de 89 jurados provenientes de nove países — com destaque para delegações do Brasil, Argentina, Chile, França e Estados Unidos. O volume de amostras impressiona: são 1.127 rótulos de vinhos e espumantes, submetidos por 190 vinícolas de 19 nações distintas. Para os profissionais que gerenciam carteiras de importação, distribuição e compras no grande varejo, o concurso transcende a premiação, funcionando como uma robusta ferramenta de prospecção comercial. A amostragem deste ano reflete um movimento de diversificação de portfólio: além dos tradicionais parceiros do Mercosul e da Europa (Chile, Argentina e Portugal), o evento registra a presença de países com menor penetração histórica nas gôndolas brasileiras, como Moldávia, Bulgária, Turquia e Azerbaijão, sinalizando novas frentes de exportação que buscam espaço no mercado nacional.
Diferente de premiações de caráter estritamente midiático, o Brazil Wine Challenge diferencia-se por operar sob o rígido regulamento e a fiscalização direta da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) e da União Internacional dos Enólogos (UIE). No ecossistema do trade, essa chancela é um ativo valioso: ela garante o rigor metodológico das pontuações e oferece ao varejo um argumento técnico incontestável perante um consumidor final cada vez mais atento a selos de conformidade e qualidade internacional. O interesse de players globais em submeter seus produtos ao crivo brasileiro também revela um posicionamento estratégico diante do cenário macroeconômico. Enquanto praças tradicionais enfrentam dificuldades estruturais de volume e retração de consumo, o Brasil mantém uma trajetória de resiliência e sofisticação.

“O mundo olha para o Brasil como um mercado em expansão, onde o consumo segue crescendo e a produção evolui em qualidade e diversidade a cada safra”, analisa o enólogo Mário Lucas Ieggli, presidente da ABE. Segundo o executivo, o aumento no número de países e empresas participantes demonstra a confiança na condução técnica do certame, impulsionada por um cenário externo desafiador. “É o contrário do que vem sendo observado em algumas tradicionais regiões produtoras, que enfrentam retração de consumo e redução de mercado”, complementa Ieggli. Essa confiança é sustentada por uma estrutura de avaliação desenhada para garantir equilíbrio entre a precisão técnica e a viabilidade comercial. O comitê de degustadores está dividido sob a coordenação de 10 presidentes de júri, incluindo nomes de peso do bloco sul-americano como Alejandro Cardozo (Uruguai), Carlos Abarzúa (Chile), além dos brasileiros Dirceu Scottá e Ricardo Morari. A banca foi composta para mesclar o rigor laboratorial de enólogos com a sensibilidade de mercado de sommeliers, pesquisadores e jornalistas especializados.
Acompanhando as transformações nas demandas de consumo global, a edição atual incorporou a avaliação técnica de segmentos de nicho que ganham tração no varejo, como o Vinho Laranja, além das categorias de Bebidas Desalcoolizadas e vinhos com graduação alcoólica reduzida (Low/No Alcohol). Para o trade, o modelo de avaliação às cegas atua como um filtro crítico de risco. Ao diluir as percepções entre técnicos de produção e profissionais da linha de frente comercial, o concurso assegura que as medalhas reflitam produtos com potencial real de aceitação e giro. As sessões de análise técnica encerram-se nesta quinta-feira (18), e o relatório completo com os premiados será divulgado oficialmente pela ABE no dia 19 de junho.
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