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Master of Wine: uma maratona acadêmica rumo ao olimpo

Candidatos ao título acadêmico de maior prestígio no mundo podem levar até uma década e investir de US$ 50 mil a 80 mil. O Brasil tem apenas um MW e, recentemente, recebeu sua primeira imersão oficial com foco no recrutamento de novos talentos

18 de abril de 20265 min de leituraPor Robert Galbraith
Master of Wine: uma maratona acadêmica rumo ao olimpo

**> Marina Gayan (MW), Thiago Mendes (Enocultura), Karene Vilela (Bacalhoa) e Demetri Walters (MW) recepcionam em evento os alunos do primeiro curso introdutório do Masters of Wine no Brasil

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O Master of Wine (MW) é a maior honraria acadêmica do universo do vinho. Com apenas 421 detentores do título globalmente, a lista conta com apenas um brasileiro: Dirceu Vianna Júnior. Fundado em 1953, em Londres, o Institute of Masters of Wine (IMW) nasceu para formalizar a qualificação no comércio britânico; hoje, é a autoridade máxima global em excelência vitivinícola. Apesar da representação modesta, o Brasil entrou na nota da instituição nos dias 9 e 10 de abril de 2026. Através de uma iniciativa da Eno Cultura, principal escola de vinhos do Brasil e uma das mais conceituadas da América Latina, São Paulo recebeu a primeira edição do curso introdutório ao IMW realizada em solo brasileiro. O evento buscou estimular o ingresso de profissionais locais no programa e contou com um corpo docente de peso: Marina Gayan MW — a primeira pessoa da América Latina a conquistar o título (em 2003) — e Demetri Walters MW.

Primeira turma do curso introdutório do Master of Wine no Brasil

A vinda dos mestres reforça o interesse da instituição no país. Segundo Walters, a intenção é clara: "Gostaríamos muito de contar com mais representantes do Brasil em nosso programa de estudos. É um mercado fascinante e em crescimento, que merece maior representatividade em nossa instituição".

**Exclusividade e Terroir: A Visita à Casa Tés **Além da carga técnica, o grupo de 20 alunos — formado por sommeliers e estudantes de WSET Diploma — teve o privilégio de uma visita técnica à Casa Tés, no Vale da Grama, no dia 11 de abril. O proprietário Pedro Testa abriu as portas de seu projeto de vinhos de inverno para o grupo, um gesto de grande valor acadêmico, visto que a propriedade não é aberta ao enoturismo convencional. O projeto, que conta com consultoria de nomes como Xavier Choné e Pierre Lurton, serviu de laboratório prático para os candidatos.

**Trajetória repleta de desafios **O desafio para se tornar um MW é uma maratona em todos os sentidos. Segundo apuração do Wine Trade News, o investimento financeiro varia entre U$ 50 mil e 80 mil, além de grande entrega emocional, dado o nível de dedicação exigido e o extremo rigor das provas ao longo de três estágios. Boa parte desses custos advém da necessidade de degustar vinhos de diversas tipicidades do mundo inteiro. Viagens e seminários em regiões da Europa e do Novo Mundo também são obrigatórios, com custos de passagens, hospedagem e alimentação por conta do aluno. A maioria dos que chega ao final do programa leva de cinco a sete anos, mas muitos superam uma década de esforços, isso quando não desistem pelo caminho, o que é comum.

**O temido Stage 2 **O segundo estágio é famoso por ser um dos exames mais difíceis do mundo. Os alunos devem escrever cinco dissertações em língua inglesa, cobrindo desde viticultura até questões contemporâneas (como sustentabilidade e mercado), além de enfrentar três exames de degustação às cegas com 12 vinhos cada (36 no total). O candidato precisa identificar origem, casta, método de produção e qualidade comercial. As taxas de aprovação completa (teórica e prática) variam entre 10% e 15% na primeira tentativa, com apenas 25% dos candidatos avançando no todo. Repetidas reprovações no Stage 2 podem, inclusive, resultar em um convite para o aluno se retirar do programa. No último balanço oficial, apenas quatro candidatos completaram a jornada em 2026, entre elas a primeira mulher italiana a conquistar a honraria, Cristina Mercuri, que dá aula para os alunos da Enocultura no Diploma Wset e vem sendo celebrada em toda Itália pelo feito. Atualmente, segundo o próprio Instituto MW, há 320 candidatos ativos de 46 nacionalidades. Uma curiosidade estatística é que o título costuma ser contabilizado para o país onde o MW reside. O brasileiro Dirceu Vianna Júnior, radicado em Londres, é registrado como um MW britânico. Da mesma forma, a inglesa Amanda Barnes, que obteve o título no ano passado, é associada à Argentina, onde desenvolveu a pesquisa para o seu livro South American Wine Guide.

**As brasileiras na jornada **Atualmente, quatro brasileiras enfrentam essa jornada: Cynthia Richter Ribeiro (Grape Skills, Alemanha), Karene Vilela (Bacalhôa, Brasil) e Alessandra Esteves (Florida Wine Academy, EUA) — todas no Stage 2 — além de Andrea Berthaud, (criadora do Red Submarine), que iniciou o programa no final do ano passado. Cynthia Richter Ribeiro reside em Heidelberg, na Alemanha, onde comanda a escola Grape Skills enquanto se prepara para os exames do Stage 2. Ela se orgulha de ter os mais altos índices de aprovação entre escolas alemãs para o nível 3 da WSET. Para ela, o prestígio compensa o sacrifício de tempo. “Ser estudante de MW me traz um grande reconhecimento na Alemanha. Muitos alunos procuram minha escola justamente pelo peso que o programa proporciona. Isso impulsiona os negócios e os contatos com o mercado”, conta Cynthia. Já Karene Vilela, diretora comercial e de marketing da Bacalhôa, prepara-se para as provas de degustação do Stage 2 após ser aprovada na teoria. Ela destaca o desafio adicional para quem estuda morando no Brasil. “É algo que vai muito além do conteúdo acadêmico. Para o brasileiro, a jornada tem uma 'camada extra' de complexidade que envolve logística internacional e a gestão de estresse entre carreira e estudo. Manter diversas frentes de trabalho simultâneas é a realidade necessária para sustentar a formação”, explica.

**O "Custo Brasil" e o retorno técnico **Diferente de um estudante europeu, que pode pegar um trem para um seminário, o brasileiro enfrenta voos internacionais, fuso horário e variações climáticas que impactam o rendimento. “O investimento é extremamente alto, variável e incerto, pois depende da velocidade de aprovação e da necessidade de aclimatação no exterior antes das provas”, afirma Karene. No mercado brasileiro, o reconhecimento de grandes conquistas acadêmicas ainda é tímido. “O retorno não é financeiro imediato, mas sim técnico. Estuda-se não pelo diploma na parede, mas pela 'arma' que o conhecimento proporciona nas negociações e vendas”, pontua a executiva. Segundo ela, o título não é um "bilhete premiado" para um salário maior, mas um diferencial de posicionamento. “O retorno financeiro direto no Brasil é quase nulo. Essa não pode ser a principal motivação.”

Em um contraponto de realidades, Cynthia nota que, na Europa, o reconhecimento é tamanho que grandes players — como produtores e importadoras — chegam a oferecer incentivos para que seus profissionais busquem certificações de alto nível como o WSET e o Master of Wine.

**Tabela de investimentos para a jornada completa **Os custos variam dependendo da região, mas os valores base da instituição são em Libras Esterlinas (£). Taxas de Inscrição e Curso (Anuais): Entre £4.500 e £5.400 por estágio. Exames: As taxas de exame (teoria e prática) giram em torno de £2.500 a £3.000. Custos Invisíveis (O maior peso): Vinhos para Degustação: Alunos de MW precisam degustar vinhos de nível mundial constantemente. Estima-se um gasto de US$ 5.000 a US$ 10.000 por ano em garrafas e amostras. Viagens e Seminários: É obrigatório participar de seminários residenciais em diferentes partes do mundo (Europa, EUA ou Austrália). O custo de passagens, hospedagem e alimentação fica a cargo do aluno. Total Estimado: Uma jornada completa raramente custa menos de US$ 50.000 a US$ 80.000, podendo ultrapassar US$ 100 mil dependendo da disponibilidade pessoal de cada candidato.

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