"O Brasil é a prioridade absoluta de investimento do grupo Concha y Toro"
Pietro Capuzzi, primeiro country manager brasileiro da Concha y Toro no Brasil, conta os desafios de gerenciar uma das operações mais promissoras do grupo, destino de 10% das exportações globais.

A Concha y Toro é hoje um dos cinco maiores conglomerados globais da indústria do vinho. A chegada do executivo Pietro Capuzzi para assumir o cargo de country manager — o primeiro executivo brasileiro no posto — dá uma dimensão do prestígio do Brasil. Em um cenário global de retração no consumo, o Brasil caminha na contramão: foi, nos últimos dois anos, o mercado que mais cresceu entre os 140 países onde o grupo atua. Capuzzi detalha como a gigante chilena atingiu o recorde de 2,5 milhões de caixas vendidas no país em 2025 e por que é um erro menosprezar o "fenômeno" Reservado, porta de entrada indispensável para o setor e chave para conquistar novos consumidores. Wine Trade News – O CEO global Eduardo Guilisasti tem afirmado que o Brasil pode se tornar o principal mercado do grupo no mundo. Na prática, como isso se traduz em investimento hoje? Pietro Capuzzi: A Concha y Toro (CT) nutre um carinho enorme pelo Brasil, que é hoje prioridade absoluta de investimento e foco. Operamos com uma estrutura multimilionária e verticalizada que nenhuma outra vinícola estrangeira possui no país, contando com uma equipe de cerca de 100 profissionais dedicados à construção de marcas, marketing e logística. Embora o Reino Unido ainda lidere o volume global do grupo, com cerca de 6 milhões de caixas, o Brasil já ocupa a quarta posição mundial. Nosso objetivo estratégico é claro: transformar o mercado brasileiro no principal destino global para o nosso portfólio de vinhos finos, aproveitando o maior potencial de crescimento que identificamos entre todos os nossos mercados. WTN – O consumo global de vinho enfrenta uma fase de desaceleração, em especial na Europa e nos mercados mais maduros. O Brasil, no entanto, caminha na direção oposta. Como isso tem se refletido na performance do grupo VCT no Brasil? PC – Nos últimos dois anos, o Brasil foi o mercado que teve o maior crescimento entre os 140 países onde a Concha y Toro trabalha — e isso por dois anos seguidos. Em 2025, passamos da marca de 2,5 milhões de caixas comercializadas, um volume histórico, o maior da nossa história por aqui. Esse desempenho é validado por dados da Nielsen, que mostram um crescimento de 4% nas importações e vendas de varejo em alta. A nossa estratégia de crescimento é sustentada por pilares bem definidos em diferentes segmentos. Fomos o mercado com o maior crescimento percentual do grupo pelo segundo ano consecutivo. O sell-out (venda na ponta para o consumidor) registrou dois dígitos de alta, segundo a Nielsen, o que prova que nossa estratégia de foco em marcas e inovação está ressoando. Casillero del Diablo ultrapassou a barreira das 600 mil caixas no mercado interno; e o Reservado Concha y Toro vende 1,5 milhão de caixas (18 milhões de garrafas) por ano, sendo um fenômeno absoluto. WTN – O termo Reservado é bastante controverso e inspira muitas críticas de influenciadores e dos consumidores de alto padrão. Até que ponto essa percepção ruim dos críticos impacta o consumidor médio no Brasil? PC – Muitas dessas críticas que "mistificam" o vinho com códigos tradicionais mais afastam do que atraem o novo consumidor, que é quem faz nosso mercado crescer para todos. Nossas pesquisas mostram que a percepção de qualidade da marca Concha y Toro se sobrepõe a qualquer estigma. Para a VCT, o Reservado foi a marca que ensinou o brasileiro a beber vinho importado. Estima-se que 20 milhões de brasileiros consumam o rótulo, confiando no endosso da maior vinícola da América Latina. É um número potente que nos faz questionar: será que todas essas pessoas estão erradas? Para o consumidor, o Reservado não é apenas um rótulo; é uma escolha de confiança, amada por quem busca a qualidade garantida pelo endosso da maior vinícola da América Latina. WTN – Há espaço para inovação na categoria Reservado? PC – Para expandir a categoria, a empresa aposta em inovação e na quebra de rituais rígidos. A linha Reservado Spritzer (nas versões Moscato e Rosé) foca na refrescância e na facilidade de beber, incentivando inclusive o consumo com gelo. Além disso, a marca tem ocupado espaços antes dominados por outras bebidas, como o Carnaval. Com ativações pesadas no Camarote Salvador e no Carnaval da Cidade, em São Paulo, com a linha Casillero Devil’s Carnival, a CT reforça que o vinho pode e deve estar presente em grandes eventos de entretenimento. WTN – E quanto ao topo da pirâmide? Como é a relação com esse consumidor mais exigente? PC – O equilíbrio é a nossa força. O Brasil é hoje o maior mercado mundial de Don Melchor, onde vendemos quase 50 mil garrafas. Já a linha Marques de Casa Concha se beneficia muito de regiões como Limarí; o Chardonnay de lá, vindo de solos de calcário, é uma joia que o enólogo Marcelo Papa lapidou. Nossa estratégia é ser a "escolha certa" para o varejo em todos os price points. WTN – Falando em varejo, há uma movimentação nítida de redução de portfólio nos grandes players. Como a Concha y Toro se posiciona diante dessa "limpeza" de gôndola? PC – O varejo brasileiro está muito mais técnico e profissional. Eles perceberam que ter mil rótulos aumenta a complexidade de gestão e confunde o cliente. A tendência, que já vimos em mercados maduros como o Reino Unido, é concentrar-se em grandes parceiros que garantam giro e qualidade. Nós nos orgulhamos de ser esse parceiro estratégico que ajuda o varejista a rentabilizar a categoria. WTN – Vocês têm inovado em ocasiões de consumo, levando vinho para o Carnaval de Salvador e criando produtos como o Reservado Spritzer. O objetivo é "roubar" share de outras categorias como a cerveja? PC – O objetivo é estar onde o consumidor está. O brasileiro quer refrescância. O Reservado Sweet e o Spritzer (que pode ser tomado com gelo) são respostas diretas ao nosso clima e paladar. Estar no Carnaval de Salvador era impensável anos atrás, mas o vinho precisa perder o medo de ser popular e divertido. WTN – Recentemente, o grupo anunciou investimentos pesados em infraestrutura e as aquisições se estenderam até a França, com a compra da Mirabeau na Provence. Há mais planos de aquisição do grupo para um futuro próximo? PC – Essa é uma pergunta natural, mas não queremos criar expectativas. Os 80 bilhões de pesos anunciados recentemente pelo grupo são focados em eficiência produtiva nas fábricas do Chile, e não em aquisições. Hoje, a Concha y Toro é 'top 2 ou 3' no mundo em área plantada. Temos vinhedos próprios no Chile, na Argentina com a Trivento e nos EUA com a Bonterra — que é pioneira em orgânicos e biodinâmicos. Temos também outras duas grandes 'aventuras': uma na Provence, super-recente e com foco no mercado inglês, e outra no México, que é uma joint venture para vinhos locais de muita qualidade. A gente estuda o mercado, claro, mas no Brasil o nosso foco agora é manter a excelência na distribuição e no desenvolvimento do portfólio que já temos.
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