Dia Mundial do Malbec: por que a uva reina na preferência do Brasil?
Com 50% de participação nas importações do país vizinho, a Malbec consolida-se como a categoria de maior relevância e reconhecimento no mercado nacional

Neste Dia Mundial do Malbec, celebrado em 17 de abril, o cenário para a uva emblemática da Argentina no Brasil é de consolidação absoluta. Se no passado a casta era vista como uma alternativa rústica ao sudoeste francês, hoje ela representa o padrão de consumo para o brasileiro, sustentada por uma evolução técnica que privilegia a precisão do terroir e uma estratégia de mercado sem precedentes. Tema chave para os estudantes das principais certificações de vinho, a Malbec argentina oferece um estudo de caso fascinante sobre adaptação climática. O deslocamento para vinhedos de maior altitude, especialmente em sub-regiões do Vale de Uco como Gualtallary e Altamira, trouxe uma nova dimensão à uva. O uso de solos aluviais ricos em calcário e a gestão térmica das altitudes elevadas resultaram em vinhos com maior retenção de acidez natural e taninos mais finos, distanciando-se do estilo excessivamente maduro e amadeirado de décadas anteriores.
**A Perspectiva do Mercado: Entre o Estilo e a Memória ** O sucesso da Malbec no Brasil também encontra explicação nos dados de inteligência de mercado. Segundo Rodrigo Lanari, consultor e sócio-diretor da Winenext, a casta é responsável por metade de tudo o que o Brasil importa da Argentina, volume que chega a 10 milhões de garrafas, de acordo com dados da IWSR 2025 Brazil Wine Landscapes. Lanari observa que a Malbec conquistou o consumidor local por apresentar atributos fáceis de recordar e um perfil sensorial bem definido, o que reduz a barreira de compra.
O consultor destaca ainda um fenômeno curioso de "branding indireto": a exposição massiva do nome Malbec em outros setores de consumo, como a perfumaria nacional. Para Lanari, essa onipresença da marca no cotidiano do brasileiro acabou gerando um benefício colateral para o setor vinícola, fixando a uva no topo do Top of Mind e das declarações de consumo no país. "A Malbec tornou-se uma marca mais forte que a própria região; ela oferece ao consumidor a segurança de um estilo reconhecível e uma força de lembrança que poucas castas no mundo conseguem replicar", afirma o consultor.
Para Cédric Grelin, consultor técnico da Mistral, a hegemonia da Malbec no Brasil encontra explicação na "lógica implacável" da cultura sensorial do país. Grelin, francês com formação clássica na Borgonha, observa que o Malbec mendocino partilha com o brasileiro uma generosidade sem reservas e um gosto assumido pela potência e redondeza. Segundo o consultor, existe um "casamento carnal" entre a estrutura da uva e a culinária nacional: "A carne brasileira, criada a pasto, possui uma maciez e doçura naturais que pedem um vinho de taninos maduros e envolventes em vez de angulosos", explica. Para ele, o sucesso da casta reside na sua capacidade de oferecer uma relação custo-prazer imediata e um acesso sem barreiras, revelando-se com a mesma franqueza e hospitalidade que definem a convivialidade brasileira.
Para Jéssica Marinseck, head de marketing e produto da Berkmann Wine Cellars, a liderança da casta no Brasil possui uma explicação técnica que reside na similaridade entre o paladar nacional e o perfil do vinho argentino. Jéssica argumenta que a preferência do consumidor brasileiro não é pela Malbec em si, mas pela expressão específica moldada na Argentina — vinhos mais macios e com uma percepção de doçura que agrada ao paladar local. "Se compararmos com a Malbec originária de Cahors, na França, encontramos uma expressão muito mais terrosa e rústica, que nem sempre é a preferência do mercado brasileiro", explica. Para a executiva, a Malbec tornou-se uma marca onipresente, mas sua força reside na entrega de um estilo que o brasileiro abraçou: um vinho acessível, menos austero e sensorialmente acolhedor.
**O Futuro da Categoria **Enquanto a Argentina continua a explorar os limites de suas Indicações Geográficas (IGs), o desafio para os produtores agora é manter a relevância diante de um consumidor cada vez mais atento ao frescor e à sustentabilidade. Com investimentos em viticultura de precisão e uma comunicação focada na diversidade de estilos — que vão dos Rosés vibrantes aos tintos de guarda estruturados —, a Malbec reafirma sua posição não apenas como uma tendência, mas como o pilar central do mercado de vinhos importados no Brasil.
Rankings: das 5 Uvas Mais Importadas e Consumidas no Brasil
Uvas Mais Importadas da Argentina (Valor/América do Sul) 1º - Malbec (50,2%) 2º - Cortes/Blends (14,8%) 3º - Cabernet Sauvignon (13,9%) 4º - Chardonnay (7,9%) 5º - Cabernet Franc (2,9%) Carménère (27%)
Uvas Argentinas Mais Consumidas no Brasil (Declarado - Tintas)
1º - Malbec (50%) 2º - Cabernet Sauvignon (49%) 3º - Merlot (49%) 4º - Pinot Noir (31%) 5º - Carménère (27%)
Fonte: IWSR 2025 Brazil Wine Landscapes
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